Ghao #1 – Dragon Blood

Dragon Blood


Um jovem abria as portas da bela taverna da Gaivota Enlameada. Era tarde, e até mesmo as luzes da mesma traziam um belo ar familiar.

A taverna estava cheia de pessoas dos mais diversos tipos, desde boas a más índoles, de aventureiros a piratas e bandidos, porém a ordem do lugar se mantinha instaurada pois eles não interagiam com os seus opostos.

O taverneiro estava a servir outros, sendo este um homem simples. Com cabelos curtos e castanhos, e com físico semelhante ao de um fazendeiro, parecendo um homem mais simples do que o suposto padrão “comum” quanto aos taverneiros.

Garçonetes e garçons corriam de um lado ao outro anotando e servindo os pedidos. Não era difícil ver elfos, halflings e outras raças entre os mesmos, demonstrando a grande diversidade pela qual era conhecida a Gaivota Enlameada, mesmo entre seus funcionários.

O jovem humano que entrara anda até o balcão e ali se senta a espera de ser atendido. Tinha uma expressão gentil em seu rosto, cabelos grandes e castanhos que chegavam até a altura de seus ombros, junto a olhos castanhos claros, que podiam facilmente ser confundidos com um tom de laranja mais escuro e fraco.

Usava uma blusa vermelha com gola em formato de “V”, junto a um sobretudo de cor marrom recheado de detalhes em cor dourada, sendo aparentemente uma vestimenta cara, fazendo com que as pessoas a volta achem que é um nobre, porém graças a estar bem desgastada – certamente uma peça de roupa que vivenciara muitas aventuras, tendo cicatrizes das mesmas em si -, a hipótese se torna pouco provável. O jovem aparentemente andava com ambas as mangas puxadas para cima de seu cotovelo. Também usava luvas pretas sem dedos, vestia calças azuis simples e possuía botas de couro marrons, e num rápido chute podia se dizer que ele tinha por volta de 20 anos.

Após algum tempo ali sentado, o taverneiro enfim vêm ao encontro do jovem, para atendê-lo.

-O que deseja, meu caro – Diz o taverneiro, ao olhar para as roupas do rapaz.

-Boa tarde, meu senhor. Vejamos… Qual seria a bebida mais forte disponível? – Diz o jovem com um pequeno sorriso ambicioso.

-Bem, chegou ontem um carregamento de Dragon Blood de Harmona ontem. Por sinal, você ouviu sobre o que aconteceu por lá? Ultimamente só se fala no ataque.

-Então me diga o preço desse tal Dragon Blood, estou ansioso para prová-lo. – Diz animado, em seguida ficando curioso quanto a Harmona -Na verdade ainda não sei, poderia me explicar do que se trata?

-Sobre a bebida, esta é um pouco cara, mas tenha cuidado, pois dizem que uns dois já morreram bebendo ela. Bem, já que perguntou…

O taverneiro olha de um lado para o outro da taverna, esperando para ver se alguém vêm ao balcão para fazer algum pedido, o que não acontece.

-Parece que o reino humano teve a brilhante e estúpida ideia de atacar Harmona – Diz de forma irônica – Pelo jeito, a cidade não só não foi destruída como está pensando em entrar em guerra com eles. Se eu fosse o rei de lá, já estaria mandando um exército para acabar com aqueles patifes.

-Quando diz reino humano se refere a Arkhan?

-Arkhan, Terram, e até mesmo Jorkon. Aqueles patifes nunca fizeram algo de bom para nós. Só pensam em si mesmos…

-Bem, para melhorar isso só se fizéssemos uma revolução – Diz o jovem rindo.

-Quanto a bebida, será que conseguiria me arranjar uma caneca e uma noite aqui na estalagem por uma peça de ouro?

-Ahn… Olhe meu caro, só o preço de um quarto já te custaria isso. No entanto, eu gostei de você, então vamos fazer o seguinte: Pague duas peças de ouro pelo Dragon Blood se quiser toma-lo e te levamos para o quarto depois.

-Perdoe-me me senhor, mas não tenho muito dinheiro… – Diz o rapaz ficando em silêncio por alguns segundos.

Em seguida, levanta a cabeça com uma expressão empolgada como se tivesse pensado em algo.

– Tenho uma ideia, façamos assim: Caso eu consiga tomar um litro de Dragon Blood sem desmaiar, o que acho que será difícil se ela for mesmo tão forte quanto diz, o meu quarto e a bebida saem de graça, e caso eu não consiga, te dou 3 peças de ouro, justo não acha – Diz com um sorriso convencido.

-Olha rapaz… Nós servimos o Dragon Blood em dose. Um litro é suficiente para matar um boi. Vamos fazer o seguinte: Uma caneca, se conseguir… Tudo bem…

-Certo – Diz o jovem com um belo sorriso determinado – Aliás, me chamo Vinwulf, qual seria o seu nome, caro senhor?

-Pode me chamar de Darik. Vou ir buscar a caneca, só tente… Não cair no primeiro gole. – Diz o taverneiro como se o jovem tivesse poucas chances de conseguir.

-Pode deixar isso comigo.

Darik sai indo até um armazém, qual era possível ver a porta aberta no corredor. Cerca de um minuto depois, ele volta com a caneca e uma chave.

-Bem… – Ele coloca a caneca sobre o balcão, distanciando bastante o rosto da mesma, feita de metal. – Aqui está. Só não diga que eu não te avisei…

Vinwulf ergue a caneca com uma das mãos aproximando a bebida de seu rosto para sentir seu cheiro. Dentro da caneca, era possível ver um líquido vermelho escarlate, sem transparência alguma.

O cheiro da bebida é fortíssimo. Só de se aproximar, Vinwulf já sente a essência do álcool adentrando suas narinas, porém demonstra uma boa resistência, não ficando embriagado com o mesmo, que aparentemente faria isso facilmente com qualquer um. Pelo contrário, para Vinwulf, é um dos melhores cheiros que já sentira em uma bebida.

O mesmo abre um grande sorriso animado.

-Isso é música para meus ouvidos – Diz enquanto vira a caneca em sua boca, tomando um primeiro grande gole.

Vinwulf sente um líquido que é ao mesmo tempo quente e gelado. Se há um gosto tão bom no mundo, está é a primeira vez que o mesmo presenciara. Mesmo com sua resistência natural a bebida, ele já se sente levemente embriagado. Seu corpo já se encontra um pouco mais leve, como se fosse o equivalente a duas ou mais canecas de cerveja barata.

Vinwulf afasta a caneca momentaneamente da boca, pondo sua outra mão no bolso de sua calça e então botando sobre a mesa três peças de ouro.

-Isso é só para facilitar caso eu venha a desmaiar – Diz com um leve sorriso voltando a beber.

O gosto da bebida então vai mudando lentamente, apesar de continuar ótimo, como se o gosto das melhores bebidas que já tomara fossem aparecendo, porém melhor do que eram, e então se desfazendo e refazendo como o gosto de outra. A mesma ainda traz o tom quente, como se o estômago de Vinwulf já tivesse sido tomado pelo calor. Apesar disso, sua boca se encontra gelada e um gosto de Hidromel agora se sobrepõe sobre os outros.

A caneca agora já estava com menos da metade do Dragon Blood inicial, fazendo com que seja de fácil dedução que o próximo golpe seja o último.

-Devo dizer que isso realmente é um manjar dos deuses meu senhor.

-É o que dizem, mas ainda falta um gole, meu caro.

-Lá vamos nós, me deseje sorte – Diz Vinwulf sorrindo levemente embriagado, tomando um último gole.

-A sorte… Ela já está te abandonando rapaz… Nunca vi alguém chegar tão longe…

Vinwulf então acaba de beber e, estranhamente, seu organismo parece se acostumar com a bebida. Lentamente, a embriaguez que antes o mesmo sofria parecia se normalizar. A bebida trazia todo aquele em seu estômago, de forma que o jovem estivesse bem… Até demais.

O rapaz então sente algo estranho acontecendo em seu estomago. Ele dói, e parece que seu corpo começa a mudar lentamente por dentro. Vinwulf percebe que algo de estranho estava acontecendo, com o líquido ora quente ora gelado passando pelo estômago do mesmo, porém agora fervendo lentamente e borbulhando.

“O… O que…?” – Pensa o pobre rapaz devido a dor repentina, botando a caneca sobre o balcão.

-Ei rapaz, eu nunca vi alguém chegar tão longe… Você está bem?

-Si…Sim, é apenas uma dor inofensiva – Diz Vinwulf tentando segurar a dor.

Lentamente ela começa a sumir, como se parte dos tecidos internos – e até mesmo externos – de Vinwulf houvesse recebido algum toque da bebida. Ela parece ter tido um efeito… Único.

-Parece que… Agora se estabilizou… – Diz para si mesmo, em seguida se recompondo e voltando sua atenção para o taverneiro.

-Bem, deve ter sido apenas o efeito da bebida. Eu já vi pessoas fazerem diversas coisas após bebê-las: se esfaquear, falar coisas sem nexo. No entanto, alguém ficar sóbrio… Com certeza é a primeira vez. – Diz Darik surpreso – Façamos o seguinte para comemorar teu feito: O quarto é seu por esta semana, e se você quiser alguma coisa para comer ou beber, estarei a seu dispor. Vou mandar uma mensagem àquele meu fornecedor. O desgraçado me prometeu que a bebida derrubaria qualquer um. – Diz como que resmungando um pouco irritado quanto ao seu fornecedor.

-Agradeço sua generosidade Darik. – Responde o jovem com uma expressão gentil em seu rosto fazendo uma breve reverência.

-Não há de que jovem. Você me tirou de uma bela farsa.  – Diz ainda desapontando quanto ao fornecedor.

-De qualquer forma, insisto que fique com uma peça de ouro, por me apresentar o que agora é a minha bebida preferida. – Diz pegando duas das moedas que havia botado no balcão e deixando uma.

-Bem, se insiste – O homem com uma rápida risada pega a moeda, guardando-a em um bolso de sua calça.

-Por sinal, não acho que seu fornecedor tenha mentido para você, já que essa bebida realmente parecia ser forte… Bem, talvez seja porque eu estou acostumado com bebidas fortes, ou quem sabe porque o gosto era tão bom que se sobrepôs a embriaguez – Diz o jovem, acrescentando um tom irônico na última frase.

-Bem, duvido que seja isso. Segundo ele, três bárbaros caíram depois de um gole e outros dois se mataram com a embriaguez. Olha, não me leve a mal. Mas você não me parece tão… Robusto.

-Se duvida, ofereça o mesmo desafio a alguém “robusto” daqui – Diz convencido.

-Quem sabe outra hora… – Diz evitando pensar em sequer servir a bebida de graça.

-Certo me desculpe pela inconveniência. Aliás, caro Darik, você sabe de alguém que esteja contratando aventureiros? Faz um bom tempo desde que não participo de uma. – Diz enquanto olha de canto de olho procurando pessoas jogando jogos de azar na taverna.

-Bem, tem alguns capitães a procura de marinheiros. Sabe, corsários e piratas, se este é o tipo de trabalho que está procurando.

-Como você disse antes, não sou do tipo robusto, então prefiro uns trabalhos mais simples.

-Sinceramente não sei muito disso. Talvez encontre algo por aí com estes patifes.

Vinwulf vê o que procurava, pessoas apostando, com boa parte usando dados para jogar algum jogo com o qual não estava familiarizado.

Ele estranha não ter pessoas jogando jogos de cartas, e se lembra de já ter ouvido sobre isso em outras tavernas, com pessoas comentando sobre tal peculiaridade.

Apesar de cartas não serem proibidas nessa região, sua composição de papel normalmente acaba por fazê-las ficarem úmidas nesta cidade marítima. Há também histórias de mascates e ciganos que passaram pela cidade… E dizem que não foi para uma boa coisa. O rei não proibiu baralhos, mas estes acabaram por cair na ruína desta cidade.

-Hm… Se não for incômodo Darik, eu queria experimentar esse jogo de dados porém não conheço o jogo, poderia me explicar?

-Bem, não existem muitas pessoas confiáveis aqui, portanto, se não conhece o jogo, sugiro nem jogar sabe, pois esses patifes adoram roubar nos dados. – Diz já acostumado com as frequentes brigas com relação a isso – Mas eles estão jogando um jogo bem simples. Os dados possuem 20 lados, uma coisa nova nessa cidade. O objetivo do jogo é bem parecido com 21, se você está acostumado com cartas. Só que nesse, você rola três dados e o valor é 54. Após os três, caso queira continuar, rola mais um, e aquele que ficar com 54 ou o maior número – inferior a 54 – ganha.

-Parece interessante, vou me arriscar. – Diz pegando a chave de seu quarto das mãos de Darik e se dirigindo até uma das mesas de apostas. – Com licença senhores, eu poderia jogar?

Um deles, qual parecia ser o capitão de algum navio se vira a Vinwulf. É fácil notar a diversidade mesmo naquela mesa. Um carrega uma espécie de bastão em suas costas, contendo um furo e uma espécie de parte alongada de madeiro, como um apoio aos ombros. Vinwulf não entende muito bem o que é, mas estipula que deve ser mais valioso do que seu dinheiro atual.

-Bem, senta ai. Sabe jogar, pelo menos? – Diz o que parece ser o capitão.

-Digamos que conheço o básico.

-Então vejo que vai ser ótimo arrancar teu precioso dinheiro. Vamos lá, vai que tu tens sorte. – Diz com uma risada ambiciosa virando-se aos demais.

-Eu começo apostando duas peças de ouro. Aumentam ou cobrem? – Diz o suposto capitão colocando uma peça de ouro na mesa, cujo entalhe é diferente, não parecendo ser familiar a Vinwulf.

-Eu aumento para duas. – Diz um homem de turbante botando duas peças de ouro sobre a mesa.

Um outro, aparentemente mais velho, bota duas peças de ouro juntamente com o capitão – que adicionara mais uma. – e então ambos olham para o homem que acabara de entrar na mesa.

-E aí, tem tudo isso com você? – Diz o capitão com o rosto fechado.

Vinwulf apenas sorri e bota duas peças de ouro na mesa.

-Olha só, não é que o patife têm alguma coisa? – Diz o capitão rindo, mostrando seus dentes de ouro reluzentes – Vamos lá então. Pode usar alguns dos meus dados. – Diz entregando três dados diferentes dos quais o homem estava acostumado, pois eles realmente possuíam vinte lados.

-Eu começo nessa tranqueira. – Diz o homem que estava usando um turbante, que pega um copo de plástico opaco.

Colocando seus dados sobre a mesa, ele os cobre com o copo, e então começa a balança-lo na mesa, fazendo-os girar. Ele então para a agitação, tirando o copo e contando os valores.

-30. Vou continuar.

Ele se põe a fazer a mesma coisa novamente, porém dessa vez com só um dado. Ao somar o resultado com o que já tinha, conclui.

-43… É, o que pode dar de errado? Vou continuar, quero ver esse 54 saindo ainda hoje.

Ele então repete o processo, e ao ver que o resultado resultou em 11, ele exibe um sorriso vitorioso, já puxando as moedas para seu lado.

-Que sorte… – Diz Vinwulf vendo a cena.

Mas naquele momento, o capitão bate sua adaga na mesa.

-Tu tá roubando, não é? Sabe o que fazemos com ladrões no meu navio? Cortamos as mãos fora – Diz se levantando irritado deduzindo ser uma evidente trapaça.

O homem de turbante se levanta encarando o capitão.

-Isto é um ultraje! Foi pura sorte meu caro! Os dados sorriem para mim!

Naquele momento, os dois sacam suas cimitarras, dando a entender que uma possível briga de bar violenta viria a ocorrer em seguida…

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(Aviso: Essa aventura é uma rescrita em forma narrativa de uma sessão de RPG, e tal obra não é de minha total propriedade intelectual.)

PS: Eu sei que o calabouço ficou um bom tempo sem liberar novos andares, mas aqui está um novinho em folha, e outros virão a seguir, toda segunda ás 11:00.

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